Editorial
Só
há justiça social se todos tiverem a mesma liberdade
José
Manuel Fernandes
Público, Sexta-feira, 07.09.2007
A
liberdade de educação responsabiliza e facilita uma real igualdade de
oportunidades; os modelos centralistas têm falhado nos seus objectivos
de
aumentar a coesão social
Quando o
PÚBLICO, há quase dez anos, entendeu dever pressionar os governos para que
fossem tornadas públicas as médias nos exames de 12.º ano escola a escola, um
dos argumentos com que nos defrontámos era o de que a divulgação pública dessas
médias iria fazer com que os melhores alunos procurassem ainda mais as melhores
escolas. O que agravaria as desigualdades.
Após seis anos
de divulgação pública desses rankings, as mudanças no topo das tabelas mostram
que esse efeito foi menor do que o efeito de estímulo sobre as escolas cujos
alunos obtinham piores resultados. Mais: quase todos os anos há agradáveis
surpresas no topo das tabelas, sinal de que, escola a escola, a competição gera
melhorias, mesmo quando não ocorre a tão temida "migração" de alunos.
Na verdade, essa "migração" de alunos entre estabelecimentos de ensino público
encontra-se fortemente condicionada por um sistema em que o Estado se arroga o
direito a determinar para que escola devem ir todos os estudantes, estabelecendo
regras de base geográfica draconianas. Qual o resultado? O inevitável: mais
injustiça social.
É fácil perceber porquê. Os pais das classes mais elevadas ou mais instruídas já
tinham, mesmo antes da divulgação das tabelas, uma ideia de quais as piores e as
melhores escolas, pelo que utilizavam (e utilizam) os inúmeros alçapões do
sistema para conseguir que os seus filhos ficassem nas escolas onde os queriam
colocar. Nos grandes centros urbanos e, de uma forma geral, ao longo do litoral,
onde se acumula a maior parte da população, uma família com algumas posses e que
se preocupe com a educação dos seus filhos consegue ter uma razoável liberdade
na escolha da escola pública e, quando o entende, de uma escola privada. O mesmo
não se pode dizer dos mais pobres e menos instruídos.
É aqui que se gera o efeito perverso do aumento da injustiça social, pois esta
começa precisamente quando se nega a igualdade de oportunidades, uma igualdade
gerada neste caso pelo sistema centralizado, rígido e homogéneo. É assim que,
inconformada, a Fundação Pró-Dignitate, presidida por Maria Barroso, promove
hoje e amanhã, em Lisboa, um simpósio sobre A Escolha da Escola Face à Justiça
Social: Dilema ou Miragem?, tendo o apoio da OIDEL, uma organização com estatuto
consultivo junto da UNESCO e do Conselho da Europa. O dilema, que os
organizadores assumem, é que este tema não pode ser tratado numa só dimensão ou
num confronto artificial entre escolas públicas e privadas. O desafio é, como
escrevem os organizadores, "conciliar liberdade com justiça social e a escolha
da escola com igualdade de oportunidades". Algo que um sistema único que visa
também ser fornecedor único não consegue, antes gerando desigualdades que o seu
próprio gigantismo e o silêncio dos desfavorecidos tendem a esconder. A
resistência à divulgação das tabelas com os resultados dos exames nacionais
mostrou também como o sistema se tenta mais depressa autoproteger do que
submeter-se ao escrutínio do público e, sobretudo, dos pais.
Ora se, como já sucede nalguns países nórdicos, dermos às famílias mais
liberdade de escolha (o que implica encontrar mecanismos de apoio aos que querem
escolher estabelecimentos privados mas não têm meios para isso), estas tenderão
a envolver-se mais com a escola e com os resultados escolares. É natural que
muitas escolham em função apenas da qualidade ensino, mas outras podem escolher
em função dos valores transmitidos pelas escolas.
Para algo,
contudo, aponta toda a evidência empírica, designadamente os resultados do
testes internacionais PISA: a liberdade de educação responsabiliza e facilita
uma real igualdade de oportunidades; os modelos centralistas têm falhado nos
seus objectivos de aumentar a coesão social.
Não valerá pois
a pena estudar as "boas práticas" em lugar de insistir em ideias feitas?
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