Segunda, 16 de
Outubro de 2006
Entrevista a Marçal Grilo (excertos)
Sete anos depois de ter deixado de ser ministro da
Educação, Marçal Grilo continua a acompanhar e a pensar sobre os problemas do
sector. Por José Manuel Fernandes e Dina Soares (Rádio Renascença) Excertos do
essencial da entrevista ao programa "Diga Lá Excelência". Selecção e subtítulos
da responsabilidade do Fórum para a Liberdade de Educação.
O papel do Estado
Tem de haver alguma coisa a correr mal para se
ter assistido àquela manifestação, ou não? Porque é que pessoas como Manuel
Alegre começam a dizer que é preciso defender a escola pública?
Há dois grandes modelos de
escola pública, o francês e o americano. O francês foi feito contra a hegemonia
da Igreja Católica. Nos Estados Unidos, país de imigrantes, foi o instrumento da
integração. Em Portugal a ideia de que escola pública é a escola do Estado onde
se produz ensino laico e republicano está algo ultrapassada. Sobretudo como
escola única. Temos de perceber que qualquer escola privada também presta um
serviço público, mesmo sendo paga pelo aluno ou através de uma bolsa.
Correspondeu à escolha do aluno e dos pais, sendo pena que no público ainda
estejamos limitados pela ideia do atlas escolar que prende os alunos a
determinadas escolas conforme a sua distribuição geográfica. Na minha
perspectiva, não só deve desaparecer a distinção entre escola do Estado e escola
privada, como mesmo na escola do Estado a família deverá ter a possibilidade de
escolher a que preferir.
Autonomia das escolas
Pouco tempo antes de sair do Governo disse que
tinha colocado o navio a ir na direcção correcta por três motivos: o lançamento
do pré-escolar, o processo de autonomia das escolas e o sublinhar do papel
essencial dos professores. Se não considerarmos o caso do pré-escolar, onde se
tem realmente progredido, nas outras frentes o navio ou encalhou ou quase não se
moveu...
De facto o pré-escolar tem
corrido bem, o grau de cobertura do país é bom, os jardins de infância deixaram
de ser apenas depósitos de crianças para terem uma componente educativa, pelo
que não sinto que seja necessário fazer muito mais do que reforçar a cobertura
em algumas zonas ainda carenciadas. Já quanto à autonomia, a Conferência da
Gulbenkian sobre Educação foi precisamente sobre esse tema. O comissário, Neves
Adelino, percorreu o país e aquilo que constatei é que, apesar de haver apenas
uma escola que tinha assinado um contrato de autonomia, o conceito estava
enraizado e havia muitas escolas que a usavam. A autonomia não é apenas um
contrato, é uma atitude, uma forma de estar.
É possível haver autonomia quando os professores são colocados num
concurso único nacional e centralizado?
Num caso limite diria que
os professores devem seleccionados e contratados pelas próprias escolas. Parece
óbvio que é para aí que tem de se caminhar.
Contudo fez-se o contrário...
O caminho nos últimos anos foi desastroso. Cheguei a ouvir alguém dizer que os
professores deviam ser colocados por concursos nacionais semanais. É necessário
inverter este caminho. O que se fez bem, por exemplo, foi o que aconteceu no
primeiro ciclo com a contratação dos professores de inglês. Aquilo que imagino
como ideal num prazo de, digamos, dez anos, é que todas as escolas tenham um
conselho, mais pequeno do que o previsto na actual lei, que integre
representantes da comunidade que nem têm necessidade de ser pais, podem ser
apenas cidadãos empenhados e preocupados. Esse conselho escolhe depois o
director da escola...
Tem de ser um professor?
Não, mas a verdade é que por
regra costuma ser um professor nos países onde este processo está mais
desenvolvido. A lei não tem de impor que seja um professor, mas é natural que
seja alguém com competências pedagógicas que depois adquire competências de
gestão. Isso sucede muito nas empresas, até nos jornais... Este caminhar para se
terem conselhos, directores e equipas escolhidas pelas escolas deve ser feito
instituição a instituição ou, pelo menos, agrupamento a agrupamento. Mesmo assim
considero que a lei de 1998 ou 1999 fez algum caminho, pois sem ela as escolas
não teriam começado a compreender a autonomia e que esta é um instrumento para
cumprirem os objectivos que se propõem.
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