POL nš 6038 | Domingo, 8 de Outubro de 2006
O MAL DA
EDUCAÇÃO
VASCO PULIDO VALENTE
Vinte mil
professores com o apoio de 14 organizações sindicais fizeram quinta-feira a
maior manifestação de sempre contra um ministro da Educação, neste caso a
ministra Maria de Lurdes Rodrigues, que não há muito tempo passava por uma das
luzes do Governo e que de repente se transformou em "ditadora", "autista" e
"mentirosa". Motivo? A reforma da carreira docente. De maneira geral, os
professores não têm razão. Um exemplo: ao contrário do que eles pensam ou fingem
que pensam, um curso superior não garante hoje (se alguma vez garantiu) qualquer
proficiência em matéria alguma. Uma avaliação posterior é mais do que
justificada, como aliás se exige em Portugal e fora de Portugal em muitas
profissões, como a advocacia ou a medicina. Outro exemplo: o "ano à
experiência", uma espécie de um estágio, mede uma capacidade específica, a de
ensinar, que não coincide forçosa ou frequentemente com a competência académica.
Não seria útil e sensato acabar com ele.
Mas, dito isto, há um ponto em que a fúria dos professores se compreende. A
tentativa de regular e dirigir um sistema tão extenso, pesado e complexo de um
prédio da 5 de Outubro deu, e dará sempre, um péssimo resultado. A escola única,
gratuita e obrigatória, instituída e comandada pelo Estado, produto do
nacionalismo e do anticlericalismo do século XIX, é agora inteiramente obsoleta
e uma fonte de ineficiência e confusão. Reservando para si um papel fiscalizador
e regulador, o Estado devia promover a emergência de um "mercado de ensino", em
que a escola (pública, particular ou cooperativa) fosse de facto autónoma (e
pudesse, nomeadamente, contratar professores), mas sobretudo um "mercado" em que
a escola, mesmo a título simbólico, fosse paga.
Existem argumentos sérios para deixar no Estado a essência da Segurança Social e
da Saúde. Não existe nenhum argumento convincente a favor do monopólio ou quase
monopólio público da Educação. No que prometia (a igualdade, a qualidade, a
"neutralidade" ideológica e política) esse monopólio falhou. E, em
contrapartida, criou um mundo fechado e absurdo, em que ninguém é responsável
por ninguém: nem os pais pelos filhos, nem os filhos por si próprios, nem os
professores pela escola em que os forçam a trabalhar e a viver. O "mercado",
embora imperfeito e limitado, ajudaria a devolver alguma responsabilidade ao
sistema: aos pais porque pagariam, aos filhos porque a violência, a indisciplina
e a preguiça custariam caro, e aos professores porque a concorrência lhes traria
uma autoridade real. O esforço de "arrumação" da sra. ministra é meritório. Só
que, infelizmente, sendo as coisas o que são, não mudará nada do que importa
mudar.
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