Domingo, 30 de Janeiro de 2005
Abandono e
insucesso envergonham Portugal Em causa o progresso económico
Fernando Basto
Três décadas passadas
após o "25 de Abril", e apesar do número elevado de reformas e experiências
pedagógicas, a escola portuguesa continua a ser um local de desencontro. Uma
visão pessimista? Talvez não. As estatísticas provam que o abandono escolar e a
saída precoce do sistema de ensino continuam a ser chagas que envergonham o
nosso país entre os parceiros europeus. O mais grave é saber que o insucesso
escolar fere o país profundamente, pondo em causa o desenvolvimento social e
económico desejado.
São décadas de reformas e práticas pedagógicas ditas
inovadoras e a par das metodologias mais em voga. Os investimentos feitos em
educação também não têm sido despiciendos, principalmente quando comparados com
os de outros países da Europa. Contudo, os resultados estão muito aquém dos
desejados.
Se é certo que o desenvolvimento social e económico
de um país está dependente do nível de formação do seu povo, então é impossível
aceitar que crianças e adolescentes em idade escolar não estejam na escola ou
que a abandonem sem, pelo menos, a escolaridade mínima obrigatória.
Saber onde se perdem tantos investimentos feitos sem
a obtenção dos frutos pretendidos tem sido uma preocupação constantemente
manifestada pelos sucessivos governos. As respostas e sugestões têm sido
múltiplas, umas com um sério sentido de contributo para uma causa comum, outras
mais orientadas para intuitos de cariz político.
Acredita-se que estas últimas têm impedido a
obtenção de consensos em torno do planeamento e concretização de políticas
sérias e eficazes, que façam da escola um espaço para todos. E foi precisamente
a falta de consensos entre as forças políticas com assento na Assembleia da
República que levou o Chefe do Estado a não promulgar a Lei de Bases da
Educação, o pilar em que têm de assentar todas as mudanças.
A verdade dos
números
As estatísticas
apuradas pelos últimos recenseamentos deixam claro que, apesar dos progressos
feitos na última década, a escola continua a ser um local pouco atractivo para
um significativo número de crianças e adolescentes. Com efeito, de acordo com o
Census de 2001, naquele ano eram 18 mil as crianças e adolescentes que não se
encontravam na escolaridade obrigatória.
Os números mostram, ainda, que, em 2001, era de
24,6% a taxa de indivíduos com idades entre os 18 e os 24 anos que não haviam
concluído o 3.º ciclo e de 44,8% aqueles que, na mesma faixa etária, não tinham
terminado o ensino secundário. De acordo com os dados mais recentes, sabe-se que
um em cada quatro alunos abandonam as escolas secundárias no 10.º ano de
escolaridade.
Preocupados com o mal-estar que o constante
adiamento de uma verdadeira reforma no sistema educativo implica no
desenvolvimento económico do país, os empresários procuram um comprometimento
dos partidos políticos em torno das mudanças consideradas fundamentais.
Às voltas com a escassez de quadros intermédios
qualificados, os empresários condenam as políticas educativas que colocam
Portugal na cauda da Europa em termos de frequência daquele grau de ensino. Com
efeito, apenas um terço dos portugueses na faixa etária dos 25-39 anos tem como
qualificação mínima o 12.º ano.
Criticam, também, o fraco desenvolvimento do ensino
profissional, com as escolas a admitirem apenas 43% dos candidatos. E, segundo
alegam, o país tem sido capaz de formar apenas 20 mil técnicos especializados
por ano, quando as necessidades actuais apontam para os 150 mil.
Professores
vitimizados
Entre as vítimas do
sistema de ensino estão os professores. De acordo com as organizações sindicais,
mais de 30 mil professores estavam no desemprego. Para além disso, a
estabilidade do corpo docente continua por concretizar, o que obriga,
anualmente, à deslocação dos professores, com todas as consequências que essa
"dança" significa para o sistema.
A sólida formação do corpo docente tem sido apontada
como uma das chaves do sucesso obtido pela Finlândia nos últimos resultados do
PISA (Programa Internacional para a Avaliação dos Estudantes). Aquele programa
avalia a competência dos alunos no final do ensino obrigatório em áreas como a
Matemática, Ciências e a Leitura. Entre os 29 estados onde a avaliação foi
feita, Portugal ficou-se no 25.º lugar, o que vem provar que está longe de ser
alcançada a proficiência na leitura e nos cálculos aritméticos, duas áreas-chave
do saber.