Entrevista com Christopher Woodhead

 
"O controlo do Estado sobre as escolas não leva nem a um melhor ensino, nem a melhores resultados"
 

Por José Manuel FernandesIsabel Leiria
Público, 10-11-2002,

 

Foi polémico durante os seis anos em que dirigiu o órgão encarregue de inspeccionar as escolas inglesas. E continua a suscitar controvérsia com o seu recente livro - "Class War, The state of british education". Céptico em relação à capacidade do Governo gerir o sistema educativo, Christopher Woodhead acredita que os resultados só melhorarão com a entrada dos privados neste mercado.

Se um professor é incompetente deve ser demitido. Se o Estado não consegue fazer com que as escolas apresentem melhores resultados, deve deixar os agentes privados tentar. Às famílias deve ser entregue um cheque-ensino para que possam ter liberdade de escolher a escola dos seus filhos. Estas foram algumas das ideias defendidas por Christopher Woodhead durante a sua passagem por Lisboa, na passada semana, para participar na 10ª edição do Encontro Internacional de Estudos Políticos, organizado pela Universidade Católica Portuguesa

PÚBLICO - A ministra inglesa da Educação, Estelle Morris, demitiu-se recentemente alegando não ter estado à altura da sua missão. Acha que tomou a decisão correcta?

Christopher Woodhead - Sim. Não a considerava nem intelectual, nem emocionalmente preparada para lidar com os problemas que existem nas escolas inglesas. A verdade é que 25 por cento das crianças de 11 anos continuam a sair da escola primária com graves deficiências na leitura e nos números. Sete por cento dos alunos de 16 anos saem do ensino obrigatório sem qualquer tipo de qualificação, apesar das milhares de horas que passam nas salas de aula. Ou seja, o Governo não resolveu o problema da educação.

Mas não tem havido progressos?

O único progresso consistente verificou-se na literacia. Antes de Tony Blair vencer as eleições, em 1997, o número de crianças de 11 anos sem os níveis mínimos de literacia rondava os 50 por cento. Foi reduzido, mas para além deste sucesso, que é limitado, não consigo apontar mais nenhum exemplo de melhoria. Apesar do consider*vel investimento na educação...


Não é, então, um problema de falta de financiamento?

Existe muito dinheiro no sistema educativo. O problema é que demasiadas verbas estão a ser consumidas pelas burocracias e não chegam às escolas e às salas de aula. E, mais importante do que isso, as melhorias introduzidas na educação nunca foram até à raiz dos problemas.

Esteve seis anos à frente da Ofsted, o organismo que inspecciona as escolas. Este órgão não faz parte da burocracia que critica?

De certa forma, sim. Mas, historicamente, creio que a Ofsted [Office for Standards in Education] serviu um propósito útil: colocar o desempenho das escolas a escrutínio público. Antes da Ofsted existir, e antes da publicação da informação sobre os exames ['rankings'], os pais e as comunidades locais nada sabiam acerca de como um estabelecimento de ensino se estava sair em comparação com outro. Tínhamos duas escolas numa mesma zona de classe média e uma estava a conseguir resultados nos exames três a quatro vezes melhores do que a outra. Ora o relatório da Ofsted foi importante porque dizia o que estava mal nessa segunda escola.

Quais as razões mais frequentes para tais diferenças?

Essencialmente duas. Em primeiro lugar, a liderança. Não há grande segredo aqui. Um antigo ministro inglês da Educação disse uma vez que a coisa mais próxima que temos na educação de uma varinha mágica é um bom professor, um bom director de escola. Nove em cada dez escolas que não estavam a produzir bons resultados tinham problemas de liderança. O segundo factor tem a ver com a qualidade do ensino. Cerca de 15 mil dos nossos professores são incompetentes e devem ser despedidos. Isto dá uma percentagem de quatro por cento. Não é muito, mas se forem os nossos filhos que estão a ser ensinados por estes professores, então percebemos que é importante ver-mo-nos livres deles.

Como é que podem "ver-se livres" dos professores?

Se fosse director de uma escola, iria ver todos os professores a ensinar e, se me apercebesse que algum tinha problemas de desempenho, chamava-o ao meu gabinete e dizia-lhe: 'Eu acho que há coisas que não estão bem. Vou ajudá-lo, vou enviá-lo para cursos de formação e vou monitorizar a sua evolução. Se não melhorar num determinado prazo, vou ter de o despedir'.

Isso é possível em Inglaterra?

Tem de ser possível. Não é fácil, mas pode fazer-se. O sistema de educação não é um serviço social ou de caridade para os docentes.

Enumerou dois aspectos para si essenciais. Mas a solução que propõe - abrir as portas aos privados - ultrapassa essas questões...

Sim, porque está provado que o controlo do Estado sobre as escolas não leva nem a uma melhor liderança, nem a um melhor ensino, nem a melhores resultados.

Porque os centros de decisão estão muito afastados das escolas?

É uma das razões, a cadeia de comando é muito alargada e a logística muito difícil. Mas o problema fundamental é que os dois últimos ministros da educação deixaram-se levar pelos conselhos dos 'experts' que pertencem ao sistema e a uma máquina que está mais interessada em defender os seus próprios interesses do que os interesses daqueles a quem deveria servir.

Como é que a máquina via o trabalho do inspector-geral?

É preciso ver que a Ofsted é independente do Governo e do Ministério da Educação. Os funcionários públicos, os burocratas das autoridades locais de educação (LEA), os formadores de professores, todos detestavam os relatórios que publicávamos porque eram extremamente críticos.

As escolas também não gostavam do trabalho da inspecção...

Essa era a mensagem que os sindicatos gostavam de passar. A questão é outra: nunca seremos capazes de resolver os problemas na educação ou noutro sector qualquer se não trouxermos os problemas à luz do dia. Na minha altura, detectámos 1200 escolas que estavam a falhar, muitas delas há anos.

O que é que acontecia a essas escolas?

Tinham de fazer um relatório onde diziam o que iriam fazer em resposta às críticas feitas. Depois o seu desempenho era monitorizado para ver se estavam a melhorar. Era frequente o director da escola ser substituído e alguns professores mudarem. Às vezes havia um maior apoio das LEA e do ministério. A maioria das escolas acabava por melhorar. Uma que era das piores em 1995, ficou no ano passado nos primeiros lugares do 'ranking' de escolas primárias.

Qual foi a reacção à publicação desses rankings?

A resposta dos jornais é sintomática: todos os anos ocupam páginas e páginas com as listas e não iriam fazer isso se as pessoas não se interessassem. É natural que os pais queiram escolher a melhor escola para os seus filhos.

Só que às vezes não é possível escolher...

As famílias de classe média terão mais possibilidades de mudar de casa e ir para a área de influência das melhores escolas. Os mais pobres não têm tanto essa opção. No entanto, essa realidade não coloca o princípio em questão. O desafio é este: encontrar maneira de melhorar as escolas e fazer com que a oferta responda às necessidades.

Como é que se faz isso?

A solução é a privatização da educação, é dar 'vouchers' [cheques-ensino] aos pais como se fez em alguns estados norte-americanos. Em Milwaukee, por exemplo, as famílias mais pobres que não estão satisfeitas com a qualidade das escolas públicas dos filhos, podem pedir um 'voucher' que lhes permita pagar as propinas de uma privada. Estas experiências têm tido bons resultados: a competição faz com que as escolas evoluam. É este o caminho: usar as forças do mercado para fazer aumentar os níveis de desempenho.

As empresas privadas teriam interesse em entrar no mercado da educação?

A educação é uma indústria, há um serviço público para prestar, mas também podem existir lucros. Basta haver coragem política para quebrar o monopólio do Estado.