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Edição 1671 – 8 de Novembro de 2004

 

 

«Rankings»: o debate necessário

Augusto Pascoal, vice-presidente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, secretário-geral da Fenprof


 

Há QUATRO anos consecutivos que o Ministério da Educação divulga elementos relativos às classificações que os alunos do 12º ano obtêm nas disciplinas relacionadas com o acesso ao ensino superior. O tratamento desta informação pela comunicação social, desencadeia, ano após ano, declarações apaixonadas nos mais diversos sentidos.

Como habitualmente, os primeiros lugares são ocupados por escolas do ensino particular e cooperativo, seguidas por escolas secundárias públicas, alternando umas e outras no lugar que ocupam, ano após ano. Entre as primeiras 10 destes «rankings», três escolas privadas apresentam resultados de 9, 18 e 21 alunos e a pública refere-se a 733 alunos.

Já se percebeu que algumas escolas privadas têm propinas muito elevadas, condições excepcionais de funcionamento, estruturas de apoio que correspondem às necessidades, corpo docente qualificado e estável, sequencialidade de estudos, actividades curriculares e extracurriculares diversificadas, muitas vezes à medida das possibilidades que as famílias dos alunos têm para lhes corresponder.

Quanto às escolas secundárias públicas, sabe-se que as que obtêm melhores resultados falam dos seus projectos educativos, da estabilidade e profissionalismo do corpo docente e do seu envolvimento na vida da escola; conhecem-se dinâmicas próprias e algumas actividades extracurriculares de grande interesse pedagógico.

Por outro lado, infere-se que as famílias que optam pelo ensino particular e cooperativo, no secundário, visam exclusivamente o acesso ao ensino superior, enquanto que quem opta pelo ensino secundário público, sabe que ele é um ciclo terminal de estudos para a grande maioria e para outros o patamar obrigatório para aceder ao superior público ou privado.

Se se fizerem estatísticas rigorosas, é até bem possível que se descubra que o superior público talvez seja maioritariamente frequentado por jovens que vieram do particular e cooperativo e que as famílias que pouparam no secundário, estão agora a assumir propinas elevadas no superior particular e cooperativo.

Sejam quais for os princípios ideológicos de cada um ou outros, é inegável que as famílias com elevada capacidade financeira têm plena liberdade de opção, enquanto que quem vive do seu ordenado terá que fazer as suas escolhas, condicionando-as às suas reais possibilidades. Muitas famílias acreditam predominantemente no ensino público, independentemente das suas possibilidades financeiras, atendendo à sua reconhecida qualidade. Mas parecer ser inquestionável que nem uma nem outra das situações são condenáveis. São as leis da vida e do mercado a funcionar, um domínio em que o Estado intervém das mais diversas formas e a diferentes níveis.

Creio que interessa ir mais ao fundo de tudo isto, porque ninguém gosta de se sentir exposto entre os ditos piores. Estou convicto de que, entre as escolas a que correspondem alunos com baixas classificações, muitas delas têm excelentes projectos educativos e fazem um trabalho exemplar. Vão até onde é possível, com as condições que reúnem, tendo em conta os alunos que as frequentam e as comunidades educativas que as envolvem.

Todavia, a verdade é que algumas, por motivos que interessa conhecer bem, conseguem resultados surpreendentes e os seus alunos obtêm boas classificações.

Ao fim de quatro anos de «rankings», seria interessante estudar melhor os dados que eles disponibilizam e analisar quais os factores que determinam a existência de resultados tão díspares.

Todas as escolas são diferentes. Cada escola é uma realidade própria, única, complexa e irrepetível, até de ano para ano. Cada uma tem a sua idiossincrasia, vive na intimidade e no esoterismo do seu funcionamento, relaciona-se e interage de forma diferente com os agentes educativos, culturais e socioeconómicos envolventes. Por este motivo, não é possível comparar o que é manifestamente incomparável, mas interessa conhecer e perceber o que fazem e as boas práticas que desenvolvem no privado e no público e centrar o debate na vertente pedagógica e nas condições que viabilizam melhores resultados, muitas vezes não mensuráveis pelas classificações obtidas pelos seus alunos nos exames de acesso ao ensino superior.

Neste contexto, os «rankings» podem constituir um bom desafio e um óptimo pretexto para, sem reservas de nenhum tipo, tudo fazermos para que o nosso sistema educativo evolua segura e rapidamente e se encontre finalmente com o país que deve servir. O debate pedagógico poderá finalmente ocupar o lugar a que tem direito.

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