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Exames do 9º Ano são um Teste... ao País
POR MIGUEL GOUVEIA

Diário de Notícias de 03 de Janeiro de 2005

»» É surpreendente que só agora haja exames, e que estes apenas abranjam a Matemática e a Língua Portuguesa. Mas é ainda mais surpreendente que o que deveria corresponder a uma prática rotineira tenha sido alvo de forte contestação. Os sindicatos de professores são contra os exames, alegadamente porque nem todos os alunos começaram as aulas ao mesmo tempo e porque os exames não são a melhor forma de avaliar... Por seu lado, a Confederação Nacional das Associações de Pais veio também manifestar-se contra os exames.

Numa tentativa de apaziguamento, o Ministério baixou o peso dos exames na nota final de 30% para 25% e decidiu que em 2005 os exames não incluiriam matéria do 7º e 8º anos, apesar de serem exames que deveriam obedecer a uma lógica de avaliação de todo o 3º ciclo do ensino básico. As cedências não aplacaram os grupos referidos, que continuam a pressionar contra os exames.

A história dos exames do 9º ano é uma história exemplar. As comparações internacionais provam que o nosso sistema de ensino é muito ineficiente e produz alunos ignorantes e pouco empenhados. Os professores universitários queixam-se de os alunos chegarem à universidade sem conhecimentos e sem hábitos de trabalho. Os professores do ensino secundário queixam-se de os alunos chegarem do básico sem saber um mínimo e incapazes de estudar. Mas a verdade é que sem exames nacionais não temos nenhum instrumento objectivo e global que nos permita ter uma ideia do estado em que os alunos estão quando acabam o 9º ano.

Que os sindicatos de professores não queiram exames não é surpreendente. Que as Associações de Pais também não os queiram é estonteante. Enterram a cabeça na areia e recusam-se a ver o estado de ignorância e impreparação para a vida profissional das gerações afectadas. Parece que o importante não é resolver o problema, mas sim continuar a escondê-lo. Se for esse o caso, estamos perante mais uma situação do País a negar a realidade. Os portugueses não produzem, mas endividam-se para consumir. Não querem esforço e exigência na educação, mas deploram o baixo crescimento da produtividade e os baixos salários. Usam o alibi das desigualdades para matar a avaliação a sério quando é óbvio que quem mais perde com um ensino degradado e facilitista são os alunos mais carecidos, já que para os outros as famílias compensam melhor as deficiências do ensino.

Será que nós continuaremos sob a ilusão de que a prosperidade está garantida sem esforço? Ou será que vamos finalmente perceber que precisamos de reformas incómodas e mais exigência connosco e com os nossos filhos para superarmos a distância que nos separa da Europa e das nossas ambições? Se os exames do 9º ano sempre se realizarem, e sem mais abastardamentos, isso será um pequeno sinal positivo.


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