Fernando Adão da Fonseca
Público Especial, 21 de Outubro de 2006
O que mudou na Educação em Portugal desde a publicação do primeiro ranking de escolas? Para que serve afinal esta seriação, fria e parcial, do conjunto de resultados académicos dos alunos? Para além da alegria de se saber a trabalhar ou frequentar uma escola bem cotada, ou a tristeza da confirmação dos maus resultados da sua escola, o que fica de um ranking depois da espuma dos primeiros dias?
Fosse a organização do nosso sistema de ensino diferente, com verdadeira autonomia das escolas, projectos educativos claros e diferenciados e liberdade de escolha da escola por parte dos pais e dos jovens, e o sentimento geral perante o ranking não seria de impotência e de inutilidade, mas de esperança.
O cerne da questão quando se fala em rankings, este ou qualquer outro, não é tanto a parcela de realidade que conseguem iluminar, mas a capacidade de acção dos agentes sobre essa realidade.
Ora em Portugal uma escola que se veja colocada entre as piores do ranking, pouco ou nada pode fazer para alterar essa situação. O órgão de gestão não se sente verdadeiramente responsável pelos resultados escolares dos alunos, e pode sempre argumentar-se que os mesmos já vinham mal preparados de anos lectivos anteriores. Os professores são colocados por concurso nacional, segundo a lógica ultrapassada do planeamento central, dificultando o sentimento de pertença dos professores à escola e à comunidade que servem. Os currículos são definidos de uma forma rígida e a margem de manobra para alterações ao nível da carga horária ou inovação curricular é pouca ou nenhuma. Os próprios professores pouco podem fazer: sem um órgão de direcção forte, e um projecto educativo bem estruturado, o melhor que um professor de uma escola “difícil” pode esperar, é ser colocado noutra escola no ano seguinte. Quanto aos pais, encontram-se numa posição subalterna, sem qualquer capacidade de influência junto dos órgãos de gestão da escola e dos professores, desde logo porque independentemente da sua vontade ou do seu juízo, são obrigados a matricular os filhos na escola da área de residência, mesmo quando esta é de má qualidade, tantas vezes deseducando em vez de educar.
Mais do que a realidade desigual, a duas ou mais velocidades, que os números reflectem, a história do ranking é o espelho de um sistema de ensino pesado, burocrático e centralizado, que ano após ano vai deixando para trás, esquecido até ao próximo ranking, um vasto conjunto de escolas e alunos. A resposta a este drama está na liberdade de educação, na linha do que todos os países têm vindo progressivamente a fazer.
Presidente do Fórum para a Liberdade de Educação
www.liberdade-educacao.org