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Opinião
► Sexta-feira, 4 de Abril de 2008 Víctor Bento
Um dos mais eficazes truques políticos para desfazer qualquer obra humana é contrapor-lhe uma ideia de perfeição.
A minha leitura sobre a mobilização dos professores contra a avaliação é a seguinte.
Uma parte dos professores não quer ser avaliada. Porém, a recusa da avaliação, só por si, não seria suficiente para uma contestação de larga escala. A sociedade teria pouca compreensão para com “a causa” e muitos professores teriam grande relutância em se lhe associar publicamente.
Mas de entre os que se não importariam de ser avaliados, uma grande parte – talvez uma larga maioria – discorda do modelo que o Ministério pretende aplicar, considerando-o imperfeito e inadequado às particularidades que considera relevantes. Eu não conheço o modelo do Ministério, mas tenho a certeza de que é imperfeito e, provavelmente, mal adequado a muitas situações particulares. E tenho a certeza disso porque todos os modelos de avaliação que conheço – e já lidei com vários, como avaliado e avaliador – são imperfeitos, não conseguem captar todas as particularidades e não agradam a toda a gente. O do Ministério não seria uma excepção.
Nas empresas, havendo autoridade e prevalecendo o pragmatismo, os modelos de avaliação vão sendo aplicados e, à medida que se aprende com a experiência, vão sendo melhorados. No Estado as coisas são mais complicadas porque há a política pelo meio e esta faz-se também através dos corpos do Estado e da deliberada mistura entre legítimas preocupações sindicais e a prossecução de projectos políticos puros e duros. Sobretudo por parte de quem há muito se apercebeu de que, num regime democrático, a incapacidade de obter poder pelo voto, pode ser compensada pelo controlo sindical daqueles corpos ou dos órgãos do Estado cujo poder é “autónomo” dos mecanismos democráticos.
Neste caso, a inevitável imperfeição do modelo de avaliação do Ministério forneceu o “motivo” que os dirigentes sindicais souberam aproveitar, inteligentemente, para “unir as massas”. Os dirigentes sabem perfeitamente que um dos mais eficazes truques políticos para desfazer qualquer obra humana – imperfeita por natureza – é contrapor-lhe uma ideia de perfeição: não há obra que resista à comparação! Sabendo isso e sabendo que não seria possível organizar a contestação baseando-a apenas na recusa da avaliação, compreenderam que seria possível mobilizar praticamente toda a gente contra “aquele” modelo de avaliação, qualquer que fosse “aquele” modelo.
Neste caso, mesmo os professores que recusam a avaliação poderiam facilmente converter‑se à defesa de um indefinido modelo ideal, que ninguém sabe qual seria exactamente, mas cujo único objectivo é fundamentar a recusa de “aquele”. Em última instância, cada um poderia aceitar ser avaliado por um modelo que tivesse em conta as especificidades que melhor protegem a sua situação particular, sendo esse o “seu” modelo ideal. No limite, poderia haver tantos modelos ideais quantos os manifestantes.
Mesmo não tendo nada de concreto a contrapor e não querendo assumir publicamente a recusa da avaliação, os dirigentes sabiam que a “plataforma unificadora” a favor de “uma outra avaliação” acabaria por tornar qualquer avaliação impossível: todos se disporiam a ser avaliados por um modelo ideal, mas não existindo concordância sobre o ideal, ninguém poderia ser avaliado!
Como sair do imbróglio? Sendo a avaliação indispensável à gestão e auto-aperfeiçoamento, os professores abertos à avaliação têm que ser convencidos de que nunca haverá um modelo que contemple todas as particularidades individualmente consideradas relevantes, mas que cada modelo concreto pode sempre ser melhorado, através da razão e da experiência recolhida. E que as soluções aplicadas em cada momento são sempre compromissos pragmáticos entre os ideais de cada um e o que a realidade permite.
Para isso são necessários canais de diálogo e negociação entre o Ministério e os professores. Os sindicatos têm estado demasiado associados a agendas políticas para servirem eficazmente este propósito. O principal desafio, de ambos os lados, será então encontrar os canais mais adequados para o efeito. |