Escrevi ontem que a divulgação, pelo segundo ano consecutivo, dos resultados dos exames de 12º ano seriados por escolas era mais um passo de um longo caminho. Contudo, ao analisar em pormenor o trabalho que foi distribuído pelo Ministério, verifica-se que este comporta demasiados erros para nos interrogarmos se a forma como foi feito não acabará por ser mais prejudicial do que benéfica para o futuro dos "rankings".
O ano passado, o PÚBLICO, com a colaboração de uma equipa da Universidade Católica, elaborou listagens de acordo com critérios estatísticos simples. Este ano, a lista distribuída pela Ministério foi a elaborada na Universidade Nova, por Sérgio Grácio, cujos critérios, fomos percebendo a pouco e pouco, ou são discutíveis ou se revelaram errados.
Primeiro tomemos o problema de reordenar as escolas de acordo com o poder de compra dos concelhos em que se inserem. Ora, como o próprio ministro reconheceu em entrevista que publicámos domingo passado, em boa parte das disciplinas a escola ficar numa zona "pobre" ou numa zona "rica", estar no interior ou no litoral, não permite destrinçar comportamentos diferentes. No entanto, as notas de referência para as escolas dos concelhos mais ricos e para as escolas privadas eram sempre mais altas, o que afastou muitas dessas escolas do topo do "ranking". Mais: dentro do mesmo concelho existem realidades muito diferentes, pelo que a aplicação cega desse critério cria a ilusão de que se está a introduzir um factor de ponderação "politicamente correcto" - a origem social dos alunos -, mas depois acaba por se utilizar a mesma bitola para escolas que, mesmo sendo vizinhas, se integram em realidades muito diferentes.
Depois é incompreensível que se coloquem a par escolas onde prestou provas um só aluno com outras onde fizeram exame dezenas ou centenas. Isso leva ao absurdo do "ranking" de Filosofia ter nos cinco primeiros lugares cinco escolas onde só um aluno fez exame, sendo que essa aluno era um aluno externo. É ridículo se não fosse trágico.
São por fim incompreensíveis as explicações "de técnica estatística" que levaram a eliminar certas escolas, sendo que nalguns casos as escolas que desapareceram do "ranking" eram, precisamente, as que se tinham classificado em primeiro lugar.
Face a esta experiência o Ministério tem apenas uma conclusão a tirar: o comportamento mais correcto é entregar a base de dados com os resultados em bruto, sem factores de ponderação, e não tentar fazer por interposta universidade ou "equipa independente" um "ranking" que não é mais do que engenharia social com algum malabarismo estatístico. Depois, todos os jornais, rádios, televisões, associações, universidades ou quem quer que seja pode e deve pegar nesses resultados e estudá-los, testando os critérios de ponderação que achar mais correctos.
Como ontem também foi possível ver, a simples divulgação destes "rankings" fez afluir a comunicação social às escolas melhor e pior classificadas, onde procuraram perceber a razão do seu sucesso ou insucesso. Foi interessante e educativo. Possam todos os pais e educadores que seguiram esses trabalhos retirar deles os melhores ensinamentos, aprendendo com os bons exemplos, evitando os maus. É esta transparência e troca de experiências informada que os "rankings" possibilitam - não os matemos pois com exercícios desastrados como o deste ano.