Os rankings ou os passos do Estado suicidário
Público, 07.11.2007, João Teixeira Lopes
Cada ano a pressão dos rankings é uma machadada na escola pública e no que ela representa nas democracias europeias
Os
rankings destroem a ideia de uma rede pública de educação porque criam um
mercado educativo que concentra, num pólo, as escolas de "excelência" e, noutro
pólo, as escolas de "segunda" ou "terceira" categoria.
Os rankings são um paupérrimo indicador da riqueza e complexidade de uma escola,
já que se baseiam nos resultados obtidos pelos alunos nos exames e estes, por
sua vez, continuam a apresentar uma fortíssima correlação com as origens
sociais. É como que uma dupla punição: partindo com fracos recursos e uma
estrutura de oportunidades relativamente fechada, vêem-se ainda estigmatizados
pela pertença a uma escola mal "classificada", vivendo com a "culpa" de que eles
próprios contribuíram para que assim fosse com os seus pobres resultados. Um
boomerang social que os crucifica novamente, porque pertencer a tal escola é
sinal da descida aos infernos. Talvez por isso, na Finlândia, putativo
país-modelo, os rankings são ilegais, o que não a impede de ser citada pela OCDE
como um caso de estudo pelos resultados sem paralelo dos seus alunos.
Os rankings escondem o icebergue. O Colégio São João de Brito aparece,
invariavelmente, nas cinco primeiras posições todos os anos. Pertence à
Companhia de Jesus e os seus responsáveis alegam que os resultados são o
trabalho de um sistema de ensino exigente e de qualidade. A Companhia de Jesus
tem mais dois colégios classificados no ranking. Em Santo Tirso e em Cernache.
Estas duas escolas têm um contrato de associação com o Estado. Ao contrário do
São João de Brito, que escolhe os seus alunos a dedo entre a elite do país,
aceitam jovens de todas as classes sociais. Os métodos de ensino, dizem, são
idênticos, assim como a contratação e formação de professores seguem os mesmos
passos do selecto colégio lisboeta. Os resultados é que são bem diferentes. O
Nun"Álvares, em Santo Tirso, ficou em 177.º. A Imaculada Conceição em 91.º. É
tudo igual, menos a classe social. A abissal diferença de resultados prova como
é injusto e mistificador comparar, como se tudo fosse indistinto, internatos com
32 alunas no centro de Lisboa com escolas de centenas de alunos no interior do
país. A ruptura de resultados, como se vê, não se centra na ditocomia
público-privado, mas na insustentável assimetria entre as escolas do litoral e
do interior.
A pressão dos rankings e da descoberta anual da "melhor escola" do país acentua
a pressão social para a introdução do cheque-ensino, uma vez que supostamente
legitimam, com a força e a "objectividade" de uma hierarquia baseada em dados
quantitativos, a superioridade do ensino privado. Cada ano, pois, uma machadada
na escola pública e no que ela representa nas democracias europeias, com o
intuito, latente ou manifesto, de preparar elites, segregar destinos, fazer
corresponder a cada trajectória social o seu destino "natural". Por alguma
razão, o cheque-ensino é um resíduo ideológico que não vingou em quase lado
nenhum.
Mas esta pressão esconde, também, as garras afiadas ao negócio. Promete a alguns
pais o que se lhes negou pela perversa lógica que subjaz ao mercado educativo:
as escolas de "excelência" farão do aluno "incapaz" o craque de amanhã. Para
tal, o Estado intervirá com os contratos de associação e o cheque-ensino,
subsidiando o sector privado. Os resultados serão imediatos, prometem-nos,
acenando aos pais com os exemplos dos São João de Brito, mas esquecendo-se de
falar de Santo Tirso ou Cernache. Como em tudo, no nosso país os
"empreendedores" detestam o risco e são parasitários do Estado...
Neste passo suicidário, é o Estado democrático que se projecta no abismo.
Sociólogo