PÚBLICO, Domingo, 1 de Maio de 2005
CARTAS AO DIRECTOR
Razões a
favor de exames nacionais
Na pequena entrevista concedida pela professora Fátima Bonifácio ao PÚBLICO, de
27 de Abril, foi salientada a necessidade de exames nacionais, nos vários níveis
de ensino, "como antídoto contra a preguiça e o facilitismo" e "como meio de
avaliação dos conhecimentos efectivamente adquiridos pelos alunos". A introdução
de exames nacionais não resolverá todos os problemas da educação não superior.
Gostaria, no entanto, de salientar, a partir da experiência de professor do
ensino secundário, a importância dos exames nacionais, no final de todos os
ciclos de escolaridade, na resolução da crise patente na educação. Apresento
seis razões.
1. Os exames valorizariam a componente científica do ensino e clarificariam a
tarefa essencial da escola. Transmissão e aquisição de conhecimentos e técnicas
são o núcleo essencial de qualquer escola e é sobre isso que se deve construir a
avaliação dos alunos e, de forma oblíqua, a dos professores.
2. Os exames ajudariam a introduzir a noção da autoridade dentro do universo
escolar - a autoridade dos saberes que se têm de adquirir e sobre os quais é
preciso prestar provas (...).
3. Os exames responsabilizariam famílias e alunos. A responsabilidade de prestar
provas, elaboradas a nível nacional, com consequências para o futuro escolar dos
alunos, despertaria pais e alunos para a necessidade de um trabalho árduo na
aquisição dos conteúdos programáticos. (...).
4. Os exames responsabilizariam os professores. Os currículos teriam de ser
efectivamente transmitidos e os professores estariam comprometidos na aquisição
desses currículos por parte dos alunos (...).
5. Os exames melhorariam o trabalho de sala de aula. Exames bem construídos, com
validade curricular e fiabilidade técnica, onde os conhecimentos e as
competências a avaliar fossem claros e distintos, poderiam ter um impacto
positivo, tanto científico como didáctico, no trabalho do professor. Se se quer,
por exemplo, desenvolver o trabalho experimental nas ciências, então avalie-se
em exame nacional, com provas práticas, essa vertente (...).
6. Os exames contribuiriam para a melhoria das escolas. Estas centrar-se-iam no
seu papel de difusão de conhecimentos e técnicas. Ficariam preocupadas com o
número de alunos que levariam ou não a exame e com as classificações obtidas
pelos seus alunos. As escolas deixariam de ser tão marcadamente ideológicas e
passariam a ter um cunho mais disciplinar, isto é, escolas fundadas nos saberes
e nas técnicas e não na pretensão totalitária de formatar os alunos segundo
valores putativamente consensuais.
7. Os exames aumentariam a confiança social na escola e nos seus agentes. Uma
escola em que não há avaliação externa das aprendizagens, no caso concreto de
Portugal, é uma escola que se desvaloriza a cada momento perante os olhos da
sociedade. Tudo é fácil. Os alunos pouco sabem e os professores pouco mais
parecem saber. Os exames nacionais poderiam também contribuir para uma alteração
desta percepção social. As aprendizagens dos alunos passariam a ser validadas
por instâncias independentes. O trabalho dos professores acabaria por merecer
reconhecimento social.
(...) Os exames nacionais (...) por si só não resolvem os muitos problemas que
atingem a educação em Portugal. Reordenação da rede escolar, definição clara e
racional do currículo nacional, regras de formação e de admissão dos docentes na
carreira, desburocratização da actividade docente, redefinição da gestão
escolar, definição clara e distinta da função da escola e transformação da
cultura existente na escola pública portuguesa são um conjunto de problemas que
deveriam merecer reflexão e acção. Os exames seriam apenas um sinal, mas um
sinal importante (...): a escola como coisa séria que visa o bem futuro dos
alunos através do esforço feito no presente.
Jorge Carreira Maia
Torres Novas