Referendo e reforma
Mário Pinto
Público, 5 de Junho de 2006
A AVALIAÇÃO
DOS PROFESSORES. Todos sabemos que são muito maus os resultados do nosso
sistema escolar. Ao longo destes trinta anos, os Ministros da Educação têm
sido sempre os "bodes expiatórios" (salvo seja) de todas as culpas. Sempre a
culpa é só do Ministério; nunca dos professores, nem dos pais, nem da
sociedade civil. É isto justo? Não, não é.
Mas, pensando bem, a verdade é que o sistema escolar é propriedade do
Estado, criado, regulado, administrado, fiscalizado pelo Estado. O Estado
manda tudo, e é assim que a Constituição é interpretada pelos defensores da
escola pública, como indispensável instrumento da "socialização" das
crianças e jovens segundo uma ideologia politicamente definida e necessária
para todos. Só os que podem pagar o ensino nas escolas privadas têm a
"liberdade" de se escaparem a esta socialização de Estado. Para não haver o
risco da "guetização" das crianças e jovens, os pais (que nesta matéria não
merecem confiança) devem ceder o papel educativo escolar ao Estado, em nome
da tal "socialização" igual para todos. E os professores devem ser
funcionários públicos. Logo, é justo que os ministros da Educação afinal
sejam os responsáveis.
Contudo, sucede algo de estranho: em vez de, como é tradição dos ministros
da Educação (com breves e leves excepções), sofrer em silêncio o respectivo
calvário expiatório, de repente a actual ministra parece apontar também
culpas aos professores. E mais: diz que os pais devem poder contribuir para
avaliar os professores, o que pode entender-se como querendo ainda
responsabilizar os pais. Tem razão a ministra? Sim, claro que tem.
Mas se lhe damos razão, voltamos a dar razão à inculpação maior de todas,
que recai sobre a Constituição e as leis, sobre as assembleias da República
e os governos e ministros da Educação anteriores, porque tudo o que tem
sucedido, inclusive as práticas de professores (como por exemplo reunir
melhores alunos em turmas e dar preferência de escolha de horários aos
professores mais antigos, aliás práticas razoáveis) são perfeitamente
previsíveis e normais dentro da lógica do sistema. Também os pais são
forçados a suportar o sistema. Ora, a lógica e a administração do sistema é
exclusiva responsabilidade do Estado. É o Estado que recruta os professores,
como decidiu fazer. É o Estado que estabelece a carreira dos professores e
as avaliações dos Alunos. É o Estado que regula todo os funcionamento das
escolas. É o Estado que administra e fiscaliza. Tudo como ele quer.
Mesmo se os sindicatos mandam demais, e ainda por cima vivem de professores
destacados pelo Ministério, é culpa do Estado. Se os alunos são
indisciplinados impunemente e os professores vítimas impotentes, é culpa do
Estado. Se os alunos vão passando sem saber, é culpa do Estado, que se deixa
dominar pelo "eduquês" da moda ideológica que se instalou dominando as
escolas superiores de educação e a máquina do Ministério. Se os professores
são culpados, é também como subordinados e vítimas; tal como os pais, que
agora alguns descobriram como massivamente incompetentes e perversos para
poderem opinar sobre a avaliação do serviço prestado aos seus filhos. Em
suma, tudo, no sistema escolar público, é em última análise sempre culpa do
Estado.
SUGESTÕES. Daqui mando à senhora ministra algumas sugestões. Reforme Vossa
Excelência todo o sistema de ensino escolar. Descentralize e dê às escolas
autonomia de gestão, com regras amplas e responsabilidade de resultados, mas
não as entregue corporativamente e em exclusivo aos professores. Incremente
Vossa Excelência com apoios eficazes a participação da comunidade educativa
no projecto de escola. Dê aos professores o direito e a responsabilidade de
ensinar, disciplinar e avaliar os seus alunos, sem lhes dificultar
subrepticiamente a aplicação das justas sanções e reprovações, e jamais por
veto dos pais. Mande Vossa Excelência que se façam exames externos aos
alunos (únicos formalmente independentes e iguais), pelo menos no termo de
todos os ciclos. Mande que os resultados do ensino sejam levados em conta na
avaliação de serviço dos professores e das escolas. Estabeleça Vossa
Excelência uma carreira docente bem remunerada e exigente, baseada em
concursos que incluam provas públicas de saber e competência, em valor
absoluto e em valor relativo, competindo os professores justamente entre si,
quer para a admissão, quer para a progressão. Fará Vossa Excelência muito
bem se der aos pais o direito de também contribuirem com a sua avaliação
para a avaliação da escola e dos professores, mas desde logo pelo direito de
escolha da escola. Isto é, devolva Vossa Excelência a escola a quem ela deve
pertencer. Só depois poderá não apenas regular, financiar e fiscalizar (que
mais não é preciso que o Estado faça), mas, então sim, publicamente ainda
criticar e responsabilizar.