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Espaço Público

Cartas ao Director

Avaliação e ranking das universidades

António Marques

 

Público, sexta-feira, 5 de Agosto de 2005

O Tema da avaliação e do ranking das universidades é, e será cada vez mais, objecto de uma intensa discussão, por razões óbvias entre as quais avulta a ligação, supostamente inevitável, entre qualidade aferida na avaliação e o financiamento. A partir do momento em que rankings comecem a ser publicados nos media iniciar-se-á entre as várias universidades um duro processo competitivo até agora quase inexistente. Neste momento em que, felizmente, um certo ambiente de competitividade já se instalou, e em que quaisquer critérios de construção deste ou daquele ranking serão imediatamente contestados (veja-se o que recentemente aconteceu a propósito do ranking de universidades segundo a produção de artigos científicos, publicado neste jornal), entrámos numa fase em que se impõem processos de avaliação com pressupostos e metodologias totalmente diferentes dos que até agora foram praticados.

Num artigo intitulado Por um ranking credível (PÚBLICO, 31/7) o reitor da Universidade de Coimbra dá-nos a saber que no passado dia 12 de Julho o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) apresentou ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior uma nova metodologia de financiamento das universidades públicas, em função de um conjunto de critérios que, à primeira vista, constituem um fundamento objectivo e credível de definição de um ranking. Acontece que no artigo do professor Fernando Seabra não se encontra o conceito-chave, sem o qual qualquer metodologia de avaliação não será capaz de se impor no actual contexto: a internacionalização da avaliação — ou seja, a não ser que nesse processo participe, sem ser a título decorativo, um número substancial de personalidades e de instituições estrangeiras de mérito científico para além de qualquer suspeita, não será viável e aceitável, em primeiro lugar para as próprias universidades, uma avaliação mais rigorosa e exigente. Sabemos cada vez melhor que avaliação e qualidade das universidades são duas faces da mesma moeda e que o lugar com que uma escola aparece num ranking é determinante para o seu futuro. Por isso mesmo, apenas a avaliação feita por instâncias verdadeiramente externas aos parceiros interessados terá aceitação geral.

A pergunta a colocar ao professor Fernando Seabra e aos seus colegas do CRUP deve pois ser a seguinte: será que as universidades estão dispostas a participar num processo de avaliação verdadeiramente internacional, que afinal será muito semelhante àquele que o actual ministro aplicou, no primeiro Governo Guterres, às unidades de investigação e que o autor do artigo reconhece como “tendo sido um dos factores mais decisivos para a constituição de um sistema científico nacional de qualidade”? Será que as universidades, tal como já acontece com as unidades de investigação, aceitam submeter-se ao juízo de parceiros estrangeiros altamente qualificados? A verdade é que muitas universidades só ganhariam em participar num tal processo, sendo natural que outras não estejam nele minimamente interessadas. Mas não será mais benéfico para a universidade portuguesa a manifestação de divergências a este respeito do que a persistência num unanimismo cada vez mais artificial, à medida que aumenta a pressão para a avaliação seja realizada com padrões verdadeiramente internacionais?

Professor da Universidade Nova de Lisboa


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